AutismologiaEstudos autistasIntrodução
A história do autismo não começa em 1943 com Leo Kanner, nem em 1911 com Eugen Bleuler, nem mesmo no momento em que a palavra “autismo” aparece na literatura psiquiátrica.
Pessoas que apresentavam algumas das características hoje associadas ao autismo evidentemente existiam muito antes da criação de uma categoria médica para descrevê-las. Por outro lado, aquilo que as sociedades, os médicos, as famílias, as escolas e, mais tarde, as próprias pessoas autistas viram nessas características mudou enormemente.
A história do autismo é, portanto, simultaneamente a história:
- de uma palavra cujo significado se transformou profundamente;
- de sucessivas categorias psiquiátricas e do desenvolvimento;
- de várias teorias de causalidade;
- de instituições e práticas educacionais ou terapêuticas;
- de movimentos de pais e reivindicações de direitos;
- do surgimento de uma voz organizada das pessoas autistas;
- e de um deslocamento progressivo da pergunta: de “o que há de errado com esta criança?” para “o que é o autismo, quais dificuldades são realmente intrínsecas e como o ambiente intervém?”.
Essa história é particularmente propensa a confusões, porque o mesmo termo foi usado para designar objetos diferentes em épocas diferentes. O “Autismus” de Bleuler pertence à sua teoria da esquizofrenia. O “autismo infantil” de Kanner constitui outra construção clínica. A categoria diagnóstica atual de “transtorno do espectro do autismo” é outra coisa ainda.
Para evitar misturar história, crítica e propostas próprias da Autismologia, esta publicação é dividida em três partes autônomas, mas relacionadas.
O título “História do autismo” é utilizado aqui por conveniência. Ele não pretende constituir uma história exaustiva de todas as pesquisas, instituições, práticas e experiências autistas em todos os países. Trata-se de marcos históricos estruturantes que permitem compreender como o objeto chamado “autismo” foi progressivamente construído e transformado.
A — História documentada
A parte A acompanha a evolução histórica das descrições, categorias, instituições e atores. Seu primeiro objetivo é estabelecer os fatos e as mudanças de contexto.
B — Exame crítico
A parte B analisa mecanismos de raciocínio que atravessam essa história: confusão entre observação e interpretação, passagem rápida demais para a causalidade, circularidade teórica, autoridade interpretativa, normalização e deslocamento do problema para o indivíduo.
Ela pode ser discutida sem adotar conceitos próprios do Autistão.
C — Análise segundo a Autismologia
A parte C muda explicitamente o referencial. Examina o que essa história pode revelar quando se distinguem realidade e convenções sociais, adaptação e assimilação, autismo e transtornos associados, natureza autista e danos sociogerados, e quando se introduzem as noções de Referencial Natural e acessibilidade atitudinal.
Essas noções são apresentadas como hipóteses e referenciais de trabalho próprios do Autistão/Autismologia, e não como consenso científico externo.