AutismologiaEstudos autistasAutismo e TEA: estado atual dos conhecimentos e principais teorias em debate
I — Introdução
Esta publicação examina o que é comumente chamado de “estado atual dos conhecimentos sobre o autismo”. A expressão parece simples, mas, na realidade, abrange objetos diferentes: critérios diagnósticos, observações de grupos, associações genéticas ou biológicas, modelos perceptivos e cognitivos, hipóteses do desenvolvimento, trabalhos sobre interação social e debates sociais e políticos.
O primeiro problema metodológico consiste, portanto, em não transformar automaticamente tudo o que é estudado sob a categoria clínica de transtorno do espectro autista (TEA) em conhecimento diretamente sobre o autismo em si.
Classificações como a CID-11 e o DSM descrevem critérios que permitem agrupar pessoas para fins de diagnóstico clínico. Pesquisas realizadas com essas populações podem produzir observações muito sólidas. Mas uma categoria diagnóstica, uma observação empírica e uma teoria explicativa não têm o mesmo estatuto.
Esta publicação adota, portanto, uma disciplina terminológica rigorosa:
- quando se trata de classificações, diagnóstico ou coortes constituídas a partir de critérios clínicos, falamos em TEA, diagnóstico de TEA, critérios de TEA ou pessoas que atendem a esses critérios;
- quando falamos de pessoas autistas, funcionamento autista ou características autistas, a palavra autismo pode ser usada sem ser automaticamente assimilada ao conjunto das dificuldades agrupadas em um diagnóstico;
- quando um autor utiliza expressões como “risco”, “déficit”, “autismo sindrômico”, “profound autism” ou “severidade”, esses termos são atribuídos à literatura correspondente, em vez de serem adotados sem distanciamento como vocabulário próprio da publicação.
O objetivo não é negar dados médicos, biológicos, psicológicos ou neurocientíficos. É distinguir o que foi observado, a maneira como isso foi interpretado e o que realmente pode ser concluído.
A publicação é organizada segundo a estrutura habitual das publicações compostas do Autismology.org.
A — Estado documental dos conhecimentos
A parte A apresenta de maneira fiel os principais conhecimentos e teorias atualmente discutidos: classificações, heterogeneidade, genética, biomarcadores, percepção, cognição, modelos bayesianos, aprendizagem, categorização, dupla empatia, neurodiversidade e categorias de necessidades de apoio. Ela não procura impor uma crítica autismológica.
B — Exame crítico
A parte B examina problemas de lógica e de método: construção do objeto estudado, heterogeneidade, confusão entre categorias e mecanismos, passagem de correlações para causalidades, mistura de níveis de análise, efeitos do vocabulário, limites dos estudos de grupo e papel do referencial não autista.
Esta parte deve poder ser discutida mesmo por uma pessoa que não adote as concepções próprias da Autismologia.
C — Análise segundo a Autismologia
A parte C muda explicitamente de referencial. Ela examina o que acontece com os mesmos dados quando se distingue o autismo dos transtornos, dificuldades, deficiências, condições associadas e consequências do ambiente, e quando se toma como objeto de estudo o funcionamento autista em si, o funcionamento não autista e a interface entre ambos.
As propostas desta parte são apresentadas como análises e hipóteses próprias da Autismologia, e não como consenso científico externo.
Uma precaução essencial
Um acúmulo de medições exatas não garante, por si só, uma compreensão correta. Se fenômenos diferentes forem reunidos desde o início em uma mesma categoria, é possível obter dados muito precisos sobre essa categoria e, ainda assim, permanecer incerto sobre o que ela realmente representa.
Inversamente, o fato de um referencial teórico ser discutível não torna automaticamente inúteis as observações produzidas dentro dele. Uma observação pode continuar importante mesmo que sua interpretação inicial precise ser revista.
O fio condutor desta publicação é, portanto, simples: conservar os dados úteis, distinguir os níveis de enunciado, examinar os pressupostos e depois reconstruir progressivamente o objeto que se procura compreender.