AutismologyA ciência do autismoExame crítico do raciocínio
Resumo executivo
Esta parte examina a proposta de Frith sem utilizar nenhuma premissa própria da Autismologia. Aceita provisoriamente o quadro diagnóstico convencional e pergunta apenas se os dados invocados são suficientes para justificar uma separação nosológica fundada principalmente na idade do diagnóstico.
A dificuldade central é que a idade do diagnóstico não é a idade de aparecimento do fenômeno: ela depende da visibilidade das manifestações, do acesso aos cuidados, da época, do sexo, da linguagem, das coocorrências, das capacidades de compensação e das práticas profissionais. Portanto, os grupos “diagnosticados cedo” e “diagnosticados tarde” já são produzidos por um mecanismo de seleção. Encontrar depois diferenças entre eles não permite, por si só, concluir pela existência de duas categorias naturais.
Vários deslizamentos lógicos são distinguidos: aumento dos diagnósticos e aumento real do autismo; aumento dos diagnósticos e sobrediagnóstico; diferença estatística e diferença categorial; diferença poligênica e diagnóstico separado; presença de coocorrências e prova de outra condição; falso positivo e novo subtipo. Um diagnóstico falso deve ser corrigido como erro diagnóstico, e não absorvido por uma nova taxonomia do autismo.
Dois pontos são especialmente importantes. Primeiro, Zhang et al. descrevem explicitamente um gradiente, e não duas categorias discretas. Segundo, o estudo sueco sobre a proporção homens/mulheres descreve uma recuperação dos diagnósticos femininos, enquanto Frith utiliza essa evolução como possível indício de uma categoria tardia diferente. Soma-se a isso a extrema instabilidade dos limiares utilizados na literatura para definir um “diagnóstico tardio”.
A conclusão metodológica não é que todo subtipo seja impossível. É que os dados atuais ainda não bastam para transformar a idade do diagnóstico em fronteira diagnóstica. Para justificar uma nova categoria, seriam necessários critérios independentes do mecanismo de detecção, reproduzíveis entre coortes, preditivos, clinicamente úteis e superiores a uma descrição dimensional.
Pontos-chave
- Diagnóstico tardio não significa aparecimento tardio.
- Os grupos comparados são afetados por viés de seleção e de ascertainment.
- Uma diferença de média, trajetória ou correlação genética não cria automaticamente uma fronteira categorial.
- Falsos positivos e diagnostic overshadowing são mecanismos diferentes que podem produzir observações semelhantes.
- Os dados justificam mais pesquisa sobre heterogeneidade, mas ainda não uma divisão do TEA baseada principalmente na idade do diagnóstico.
Princípio desta parte. Nenhum conceito próprio da Autismologia é necessário para a argumentação que segue. Aceita-se provisoriamente o quadro científico e diagnóstico convencional e pergunta-se apenas o que os dados realmente permitem concluir.
B.1 — Objeto e método do exame
B.1.1 — Uma crítica deliberadamente “mínima”
O Autistão desenvolve, em outros trabalhos, sua própria reflexão sobre o autismo. Ela não é utilizada aqui. O objetivo deste segundo estudo é testar o argumento de Frith aceitando provisoriamente o quadro diagnóstico convencional, para verificar se as críticas se sustentam mesmo sem recorrer a distinções conceituais próprias do Autistão.
O método é simples: para cada argumento importante, distinguir aquilo que é efetivamente observado, aquilo que pode ser razoavelmente deduzido e aquilo que constitui uma extrapolação adicional.
Regra de leitura. Uma hipótese pode ser interessante sem estar demonstrada. Mostrar que uma conclusão não é imposta pelos dados não equivale a demonstrar que ela é falsa; significa que são necessárias mais provas antes de transformá-la em uma nova fronteira diagnóstica.
B.2 — Confusão nº 1 — idade do diagnóstico e natureza do fenômeno
B.2.1 — Ser diagnosticado tarde não significa ter aparecido tarde
A primeira dificuldade diz respeito ao próprio estatuto da variável utilizada. A idade do diagnóstico indica o momento em que um sistema clínico reconheceu e registrou um diagnóstico. Ela não coincide necessariamente com a idade de aparecimento das características que motivaram esse diagnóstico.
Essa distinção é banal em medicina: uma doença, um transtorno ou uma característica pode existir por muito tempo antes de ser reconhecida. No caso do autismo, os próprios critérios diagnósticos exigem uma origem no desenvolvimento, mesmo quando as manifestações só se tornam plenamente visíveis quando as exigências sociais ultrapassam as capacidades de compensação.
O deslizamento. Observar dois grupos definidos por “diagnóstico precoce” e “diagnóstico tardio” não equivale a observar diretamente dois grupos definidos por “autismo aparecido cedo” e “autismo aparecido tarde”. A idade do reconhecimento não é a idade da origem.
B.2.2 — Uma variável dependente do sistema de detecção
A idade do diagnóstico depende de muitos fatores: intensidade e visibilidade das manifestações, presença ou ausência de deficiência intelectual, linguagem, acesso aos cuidados, país, época, conhecimento dos profissionais, sexo, nível socioeconômico, ambiente escolar, coocorrências psiquiátricas, vieses diagnósticos e capacidade de compensação.
Zhang et al. reconhecem explicitamente essa complexidade: seu estudo estima que cerca de 11% da variância da idade do diagnóstico é explicada pelas variantes genéticas comuns estudadas, enquanto muitos fatores não medidos, culturais e clínicos também podem intervir. Os autores citam, entre outros, acesso aos cuidados, vieses de gênero, estigmatização, etnia e camuflagem. https://doi.org/10.1038/s41586-025-09542-6
Consequência. Uma variável fortemente dependente da organização dos cuidados e da detectabilidade não pode ser tratada de saída como uma fronteira natural entre duas categorias sem demonstração adicional.
B.3 — Confusão nº 2 — seleção diagnóstica e subtipo natural
B.3.1 — Por que os grupos já devem ser diferentes
Uma criança cujas dificuldades são muito visíveis, cuja linguagem é muito atípica ou que apresenta comportamentos imediatamente preocupantes tem maior probabilidade de ser avaliada cedo. Ao contrário, uma pessoa com características menos visíveis, melhor funcionamento adaptativo ou capacidades de compensação pode ser identificada muito mais tarde.
É, portanto, esperado que os grupos “diagnosticados cedo” e “diagnosticados tarde” difiram em várias dimensões. Parte dessas diferenças contribuiu precisamente para que pertencessem a um grupo ou ao outro.
Paradoxo de seleção. Se o grupo A é selecionado porque suas manifestações foram visíveis o suficiente para desencadear um diagnóstico precoce e, depois, se descobre que o grupo A apresenta manifestações mais visíveis que o grupo B, essa diferença não pode ser tratada como uma descoberta independente do modo de seleção.
B.3.2 — O viés de ascertainment
Em epidemiologia, esse problema pertence ao viés de ascertainment: os casos observados dependem do mecanismo pelo qual são detectados. Portanto, não basta constatar que os grupos selecionados pela idade do diagnóstico apresentam perfis diferentes; é necessário determinar que parte dessas diferenças corresponde a uma variação subjacente e que parte está ligada ao próprio mecanismo de detecção.
O estudo de Zhang procura justamente ultrapassar determinados fatores de confusão e fornece dados genéticos importantes. Mas nem mesmo seus autores transformam essa diferença em duas categorias discretas: eles falam de fatores e trajetórias que variam ao longo de um gradiente. https://doi.org/10.1038/s41586-025-09542-6
B.4 — Confusão nº 3 — aumento dos diagnósticos, prevalência e sobrediagnóstico
B.4.1 — Três fenômenos diferentes
Um aumento do número de diagnósticos pode resultar de vários fenômenos que podem coexistir: mais pessoas realmente autistas são finalmente reconhecidas; os critérios ou sua aplicação se ampliam; a população ou os fatores de risco mudam; diagnósticos errôneos são feitos; ou vários desses fenômenos ocorrem simultaneamente.
O simples aumento dos diagnósticos não permite, portanto, calcular que parte corresponde a uma melhor detecção e que parte corresponde a sobrediagnóstico. A própria Frith reconhece que o aumento não pode ser reduzido a uma única causa. https://doi.org/10.1017/S0033291726105376
Confusão a evitar. Mais diagnósticos ≠ automaticamente mais autismo real. Mas mais diagnósticos ≠ automaticamente mais diagnósticos falsos. As duas inferências exigem dados adicionais.
B.4.2 — Um erro diagnóstico continua sendo um erro
Suponhamos que uma proporção dos diagnósticos tardios atuais seja de fato errônea. Isso seria um problema clínico sério. Mas esse problema não cria, por isso, um novo subtipo de autismo.
Há então duas situações a distinguir: uma pessoa é autista e foi reconhecida tarde; ou uma pessoa não é autista e recebeu o diagnóstico por engano. Misturar ambas em um grande grupo de “diagnósticos tardios”, constatar depois que esse grupo é muito heterogêneo e, por fim, utilizar essa heterogeneidade para justificar uma nova categoria corre o risco de fabricar uma parte do problema que se pretende resolver.
Formulação simples. Um falso positivo não é uma nova forma de positivo. Se é falso, o diagnóstico deve ser corrigido; não é lógico integrá-lo a uma nova taxonomia do autismo.
B.5 — Confusão nº 4 — diferença estatística e diferença de categoria
B.5.1 — Uma diferença de média não cria uma fronteira
Dois grupos podem diferir fortemente em médias, proporções, trajetórias ou correlações genéticas e, ao mesmo tempo, apresentar grande sobreposição individual. Uma diferença estatística entre grupos não demonstra a existência de uma fronteira categorial.
Para defender a existência de duas categorias diagnósticas distintas, seria necessário mostrar que essa partição possui validade e utilidade próprias: estabilidade dos grupos, critérios reproduzíveis, melhor predição clínica, mecanismos suficientemente distintos, benefício diagnóstico superior aos modelos dimensionais e capacidade de classificar os indivíduos de maneira confiável.
O salto lógico. “Os grupos diferem” é uma proposição descritiva. “Os grupos são duas categorias diagnósticas diferentes” é uma proposição nosológica muito mais forte. A primeira não implica automaticamente a segunda.
B.5.2 — O salto de “dois perfis” para “dois diagnósticos”
A própria Frith reconhece que as muitas tentativas anteriores de subtipagem do autismo produziram resultados frequentemente incoerentes e pouca adoção clínica. https://doi.org/10.1017/S0033291726105376 Essa história deveria elevar, e não reduzir, o nível de evidência exigido antes de propor uma nova divisão.
O fato de dois perfis serem detectáveis pode ser útil para a pesquisa ou para personalizar apoios sem que eles precisem se tornar dois diagnósticos diferentes. A medicina frequentemente utiliza dimensões, fatores de risco, trajetórias ou perfis transdiagnósticos sem transformar cada um em categoria separada.
B.6 — Confusão nº 5 — o que a genética realmente permite concluir
B.6.1 — O resultado importante de Zhang et al.
O estudo de Zhang et al., publicado na Nature em 2025, constitui o principal elemento novo que dá peso à discussão. Ele evidencia dois fatores poligênicos associados de modo diferente à idade do diagnóstico, bem como trajetórias do desenvolvimento diferentes. Os dois fatores apresentam apenas correlação genética moderada. https://doi.org/10.1038/s41586-025-09542-6
O fator associado aos diagnósticos mais tardios também apresenta correlações genéticas mais elevadas com TDAH e vários transtornos ou dificuldades de saúde mental. Esses resultados mostram uma heterogeneidade biológica e do desenvolvimento real dentro das populações diagnosticadas.
O que o estudo demonstra. A idade do diagnóstico está associada a diferenças do desenvolvimento e a diferentes arquiteturas poligênicas. Esse resultado é robusto e merece ser levado a sério.
B.6.2 — Um gradiente, e não duas categorias discretas
Mas o estudo contém uma precisão decisiva para interpretar Frith: seus autores escrevem que os termos “diagnosticado mais cedo” e “diagnosticado mais tarde” são relativos e que as diferenças do desenvolvimento e poligênicas representam um gradiente, e não categorias discretas. Acrescentam que não existe consenso sobre os limiares de idade que permitiriam separar diagnóstico precoce e tardio. https://doi.org/10.1038/s41586-025-09542-6
Contradição central. Frith mobiliza o estudo para sustentar dois grandes subgrupos nitidamente separados. O próprio estudo de referência esclarece que o eixo observado é gradual, e não discreto. Isso não é um detalhe: é exatamente a diferença entre uma dimensão e uma nova fronteira diagnóstica.
B.6.3 — Misclassification e diagnostic overshadowing: duas explicações opostas
Zhang et al. discutem eles próprios a correlação mais elevada do fator tardio com problemas de saúde mental. Propõem pelo menos duas explicações possíveis: misclassification, na qual outra condição seria tomada erroneamente por autismo; e diagnostic overshadowing, na qual a presença de uma condição psiquiátrica mascara ou atrasa, ao contrário, o reconhecimento do autismo. https://doi.org/10.1038/s41586-025-09542-6
Esses dois mecanismos têm implicações opostas. No primeiro, o diagnóstico de autismo pode ser falso; no segundo, ele é tardio precisamente porque outra condição desviou a atenção clínica.
Possível erro de inferência. Usar a presença de condições psiquiátricas como argumento em favor de outra categoria diagnóstica sem distinguir misclassification de diagnostic overshadowing equivale a tratar como prova um resultado compatível com duas explicações opostas.
B.7 — Confusão nº 6 — o caso das meninas e mulheres
B.7.1 — O que mostra o estudo sueco
Frith cita o estudo de Fyfe et al., publicado no BMJ em fevereiro de 2026, abrangendo 2.756.779 pessoas nascidas na Suécia entre 1985 e 2020. O estudo observa que a proporção homens/mulheres entre os diagnósticos de autismo diminui com a idade do diagnóstico e nos períodos mais recentes. https://doi.org/10.1136/bmj-2025-084164
Entre as pessoas diagnosticadas jovens, os meninos são nitidamente mais numerosos. Na adolescência, os diagnósticos femininos aumentam fortemente, a ponto de a proporção cumulativa se aproximar da igualdade na idade adulta nas coortes recentes.
B.7.2 — Uma contradição direta sobre a “recuperação”
Frith escreve que as diferenças observadas não seriam compatíveis com a ideia de uma recuperação ligada, por exemplo, a uma maior conscientização. Ela considera que a mudança da proporção entre os sexos sustenta a hipótese de uma categoria diferente entre os diagnosticados tardiamente. https://doi.org/10.1017/S0033291726105376
Entretanto, o artigo do BMJ descreve explicitamente seus resultados como um importante efeito de recuperação feminina e conclui que eles ressaltam a necessidade de estudar por que meninas e mulheres recebem seu diagnóstico mais tarde do que meninos e homens. https://doi.org/10.1136/bmj-2025-084164 Revisões sistemáticas independentes também documentam vieses de detecção, menor sensibilidade de certas ferramentas para determinados perfis femininos e um papel da camuflagem. https://doi.org/10.1007/s11065-023-09630-2 ; https://doi.org/10.1007/s40489-020-00225-8
Contradição documental. O mesmo dado — mais mulheres diagnosticadas tardiamente — é interpretado por Frith como indício de outra categoria, enquanto os autores do estudo citado o interpretam como recuperação diagnóstica a ser explicada. A conclusão de Frith, portanto, não é a conclusão da fonte.
B.8 — Confusão nº 7 — uma fronteira “precoce/tardio” instável
B.8.1 — Sem limiar consensual
A proposta de divisão supõe que exista pelo menos uma maneira razoavelmente estável de distinguir diagnóstico precoce e diagnóstico tardio. Não é o caso.
Uma revisão sistemática pré-registrada de 420 artigos publicada na Autism Research mostrou que apenas 34,7% dos estudos forneciam um limiar explícito de “diagnóstico tardio”. Os limiares variavam de 2 a 55 anos, com mediana de 6,5 anos e picos em torno de 3 e 18 anos. https://doi.org/10.1002/aur.3278
Os próprios Zhang et al. utilizam vários limiares conforme a análise e insistem no caráter relativo das categorias “mais cedo” e “mais tarde”. Frith reconhece que os estudos que aproxima não utilizam os mesmos cortes. https://doi.org/10.1017/S0033291726105376 ; https://doi.org/10.1038/s41586-025-09542-6
Problema lógico. Se a fronteira supostamente destinada a separar duas categorias varia de 2 a 55 anos conforme o estudo, a divisão pode refletir tanto a escolha metodológica do pesquisador quanto uma fronteira natural nos dados.
B.8.2 — Uma categoria dependente do contexto
A revisão sobre diagnóstico tardio também mostra que o limiar varia conforme o local e a idade das amostras. https://doi.org/10.1002/aur.3278 Esse resultado é importante: “tardio” não é uma propriedade clínica universal; é em parte uma convenção dependente do contexto de pesquisa e da organização dos serviços.
Uma nosologia pode, evidentemente, utilizar limiares convencionais, mas deve então justificar sua utilidade. Não se pode tratar esses limiares ao mesmo tempo como variáveis e utilizar a distinção que eles produzem como prova de uma separação natural entre categorias.
B.9 — Confusão nº 8 — coocorrências, causas e consequências
B.9.1 — Mais condições psiquiátricas não resolvem a questão
Adultos diagnosticados tardiamente relatam, em média, mais diagnósticos psiquiátricos. Jadav e Bal, por exemplo, encontram em uma grande amostra SPARK que adultos diagnosticados depois dos 21 anos relatam mais condições psiquiátricas do que aqueles diagnosticados na infância. https://doi.org/10.1002/aur.2808
Mas essa associação não permite determinar a direção causal. Condições psiquiátricas podem contribuir para um diagnóstico errôneo de autismo; também podem mascarar o autismo e atrasar seu reconhecimento; podem surgir independentemente; ou podem ser favorecidas por uma trajetória de vida difícil antes do diagnóstico.
Confusão de causalidade. Uma diferença observada após anos de trajetórias diferentes não permite, por si só, saber se ela é causa do diagnóstico tardio, consequência dessa trajetória, fator de mascaramento, coocorrência independente ou mistura de vários mecanismos.
B.9.2 — Tomar uma consequência possível como indício de causa
Frith considera que as diferenças de saúde mental reforçam a ideia de uma divisão. Mas essa leitura pressupõe que as coocorrências indiquem que o grupo tardio é outra coisa. Os estudos disponíveis não permitem essa conclusão única.
O estudo de Rødgaard et al. mostra que as taxas de coocorrências estão fortemente associadas à idade do primeiro diagnóstico de autismo e contribuem para a heterogeneidade observada. Ele não demonstra que as coocorrências definam outra categoria diagnóstica. https://doi.org/10.1111/acps.13345
Essa distinção é importante para evitar uma inversão clássica: partir das consequências observadas em um grupo selecionado por sua história diagnóstica e tratá-las como prova da causa que teria produzido esse grupo.
B.10 — Confusão nº 9 — fenômenos sociais e validade do diagnóstico
B.10.1 — Autoidentificação e desejo de diagnóstico existem
Frith tem razão em não ignorar as mudanças culturais. O autismo é muito mais visível nas redes sociais; a autoidentificação existe; algumas pessoas desejam explicitamente obter um diagnóstico específico; conteúdos on-line podem influenciar a maneira como pessoas descrevem sua experiência.
Um estudo de Neumann et al. com 93 psicólogos clínicos austríacos relata um aumento percebido de autodiagnósticos e diagnósticos desejados entre jovens adultos; autismo e TDAH são mencionados com frequência. https://doi.org/10.1016/j.ijchp.2025.100661
Esse ponto não é negado. Seria pouco sério afirmar que nenhum efeito de moda, identidade ou antecipação diagnóstica existe. A questão é o que esses fenômenos realmente permitem concluir sobre a validade dos diagnósticos profissionais e sobre a estrutura do TEA.
B.10.2 — O que esses dados não demonstram
O estudo de Neumann mede principalmente as percepções de clínicos sobre o aumento de autodiagnósticos e diagnósticos desejados. Ele não mede a proporção de diagnósticos de autismo que acabam sendo feitos erroneamente na população, não demonstra que as redes sociais causaram esses diagnósticos e não permite estimar que parte do aumento global dos diagnósticos seria atribuível a esse mecanismo. https://doi.org/10.1016/j.ijchp.2025.100661
Frith vai mais longe quando menciona “contágio social” e o risco de sobrediagnóstico. Essa hipótese pode ser estudada, mas não deve ser confundida com um resultado já estabelecido.
Deslizamento. “Algumas pessoas se autoidentificam ou desejam um diagnóstico” não equivale a “uma proporção importante dos diagnósticos profissionais tardios é falsa”, e muito menos a “as pessoas diagnosticadas tardiamente constituem outra categoria”.
B.11 — Confusão nº 10 — necessidades diferentes e categorias diferentes
Frith enfatiza, com razão, a enorme diferença entre as necessidades de algumas pessoas diagnosticadas muito cedo, às vezes com deficiência intelectual e grandes necessidades de apoio, e as de alguns adultos diagnosticados tardiamente. https://doi.org/10.1017/S0033291726105376
Mas necessidades diferentes não constituem automaticamente prova de categorias diagnósticas diferentes. A mesma categoria médica pode conter níveis muito distintos de gravidade, coocorrências, trajetórias e necessidades de apoio.
Inversamente, dois diagnósticos distintos podem às vezes exigir apoios semelhantes. A natureza e a intensidade do apoio são, portanto, questões clínicas e funcionais que, por si só, não resolvem uma questão nosológica.
Distinção útil. Personalizar os apoios não exige necessariamente criar uma nova categoria diagnóstica. Classificação e organização dos apoios são dois problemas relacionados, mas não idênticos.
B.12 — O problema cumulativo: um raciocínio que pode se tornar circular
Tomado separadamente, cada argumento de Frith pode parecer plausível. O problema surge quando eles são encadeados.
O grupo tardio é inicialmente constituído por um evento externo — o momento do diagnóstico. Depois, esse grupo é mais feminino, mais frequentemente associado a certas dificuldades psiquiátricas, menos frequentemente associado a certas deficiências precoces e geneticamente diferente em alguns eixos. Essas diferenças passam então a sustentar a ideia de que o grupo definido pelo diagnóstico tardio constitui uma categoria diferente.
Mas várias dessas diferenças são precisamente fatores capazes de atrasar o diagnóstico. Elas não são, portanto, independentes do critério utilizado para fabricar o grupo.
Possível ciclo. 1) Características influenciam a probabilidade de diagnóstico tardio. 2) As pessoas são selecionadas com base nesse diagnóstico tardio. 3) Essas características são encontradas no grupo. 4) Elas são usadas como prova de que o grupo constitui uma categoria diferente. Esse ciclo não torna as diferenças irreais, mas impede que sejam interpretadas ingenuamente como prova categorial.
O argumento se torna ainda mais frágil se possíveis falsos positivos forem acrescentados ao grupo tardio: eles aumentam mecanicamente sua heterogeneidade, e essa heterogeneidade pode depois ser invocada para afirmar que o grupo não se parece mais com o grupo precoce.
Para evitar essa circularidade, seria necessário definir e validar os subgrupos por critérios independentes da idade do diagnóstico e depois demonstrar que eles se replicam, predizem desfechos distintos e têm utilidade clínica superior a uma descrição dimensional.
B.13 — O que seria necessário demonstrar para justificar uma nova categoria diagnóstica
Uma proposta de subdivisão pode ser cientificamente útil sem ainda estar suficientemente validada para se tornar uma categoria diagnóstica. O ponto decisivo, portanto, não é saber se é possível detectar diferenças entre grupos — isso já é possível —, mas se a nova divisão possui validade independente e utilidade superior às descrições dimensionais existentes.
No mínimo, uma nova categoria deveria poder ser definida por critérios que não sejam simplesmente uma reformulação da idade do diagnóstico; reproduzir-se em coortes independentes; permanecer reconhecível quando o limiar “precoce/tardio” for razoavelmente modificado; melhorar a predição de elementos clinicamente relevantes; e classificar indivíduos com confiabilidade suficiente. A constatação de um gradiente, como o descrito nas análises genéticas de Zhang et al., exige especialmente testar se uma fronteira categorial realmente acrescenta algo a um modelo contínuo. https://doi.org/10.1038/s41586-025-09542-6
Outra exigência é a independência do critério de validação. Se o grupo é construído a partir de um evento influenciado pelo sexo, acesso aos cuidados, nível de linguagem, deficiência intelectual, cultura clínica, camuflagem ou coocorrências, é preciso evitar reutilizar essas mesmas variáveis como se fossem provas totalmente independentes da existência do grupo. Esse é precisamente o risco de circularidade descrito acima. https://doi.org/10.1038/s41586-025-09542-6 ; https://doi.org/10.1002/aur.3278 ; https://doi.org/10.1007/s11065-023-09630-2 ; https://doi.org/10.1007/s40489-020-00225-8
Por fim, a validação de um subgrupo não obriga necessariamente a criar um novo diagnóstico. Um perfil pode ser útil para a pesquisa, para prever determinadas necessidades ou para personalizar apoios, permanecendo uma dimensão ou especificador dentro de uma categoria mais geral. A pergunta “existe um subgrupo estatisticamente identificável?” e a pergunta “deve-se criar uma nova categoria diagnóstica?” são diferentes.
B.14 — O que o editorial de Frith, apesar de tudo, coloca utilmente em evidência
Uma crítica sólida também deve reconhecer o que o editorial levanta legitimamente. A categoria atual de TEA é muito heterogênea. Os diagnósticos aumentaram fortemente. As diferenças genéticas associadas à idade do diagnóstico evidenciadas por Zhang et al. são importantes. Os fenômenos de autoidentificação e diagnóstico desejado merecem estudo. E é indispensável poder identificar diagnósticos falsos quando eles existem.
Também é legítimo perguntar se a categoria atual é ampla demais para determinadas questões de pesquisa ou determinados usos clínicos. Subgrupos podem ser úteis. A National Autistic Society, embora conteste a ideia de aplicação clínica atual, reconhece que a pesquisa sobre subtipagem existe, mas ressalta que continua teórica e que antigas subclassificações criaram problemas de confiabilidade e estigmatização. https://www.autism.org.uk/what-we-do/news/our-response-to-professor-dame-uta-friths-new-paper
A questão científica interessante não é, portanto, “deve-se proibir toda subdivisão?”, mas “quais subdivisões estão realmente demonstradas, são reproduzíveis e úteis, e sobre quais critérios devem ser construídas?”.
Posição mínima. Estudar a heterogeneidade: sim. Melhorar o diagnóstico: sim. Procurar subgrupos: sim. Considerar a idade do diagnóstico como prova suficiente de duas categorias distintas: não, não com os dados atualmente disponíveis.
B.15 — Conclusão
A proposta de Uta Frith tem o mérito de provocar um exame crítico do diagnóstico contemporâneo do autismo. Mas sua tese de separar pessoas diagnosticadas cedo e tardiamente repousa sobre vários níveis de argumentação que não devem ser confundidos.
A idade do diagnóstico não é a idade de aparecimento da condição. Os grupos definidos pela idade do diagnóstico são produzidos por um mecanismo de seleção. Um aumento dos diagnósticos não mede diretamente o sobrediagnóstico. Um falso positivo não se torna um subtipo. Uma diferença estatística ou genética não cria automaticamente uma categoria. Coocorrências podem atrasar um diagnóstico tanto quanto complicá-lo. Fenômenos sociais podem influenciar a procura por diagnóstico sem demonstrar que os diagnósticos profissionais sejam falsos.
Dois elementos são particularmente difíceis de conciliar com uma divisão simples. Primeiro, o estudo genético de referência descreve explicitamente um gradiente, e não categorias discretas. Segundo, o estudo sueco invocado por Frith interpreta o aumento relativo dos diagnósticos femininos tardios como recuperação diagnóstica, enquanto Frith o vê como indício de outra categoria.
É, portanto, possível que o editorial identifique um problema real — heterogeneidade excessiva, erros diagnósticos, necessidades muito diferentes — e, ao mesmo tempo, proponha uma solução que ainda não decorre suficientemente dos dados.
Conclusão geral. Mesmo sem recorrer a nenhuma teoria própria do Autistão, a hipótese de uma divisão do TEA fundada principalmente na idade do diagnóstico parece atualmente insuficientemente demonstrada. As observações justificam uma pesquisa mais precisa; ainda não justificam uma nova fronteira diagnóstica.